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06
jul
2011

Alguém me explica Igatu?

Esse post pertence à série “Outras Rotas” do “Rotas”. Nela, os nossos blogueiros fazem relatos de suas viagens fora do Espírito Santo. Se quiser conhecer mais sobre esses relatos, basta clicar na aba “Outras Rotas” ali no topo do site para ter acesso a todos os posts separados por destino.

Pelos poucos relatos que eu publiquei até agora já deu para perceber que a Chapada Diamantina é uma viagem para superlativos. Lá você vai ver os lugares mais fascinantes da sua vida, vai se hospedar nas pousadas mais surpreendentes da paróquia, vai experimentar os pratos mais saborosos do mundo ocidental (Karol, vai aqui uma homenagem a você!) e vai viver os momentos mais inesquecíveis de todos os tempos!

Já tô até me sentindo chato e repetitivo ao falar tanto que uma coisa foi a coisa mais alguma coisa da minha vida! Mas eu não tenho opção. Em algum superlativo eu preciso enquadrar a vilazinha de Xique-Xique do Igatu (ou simplesmente Igatu), em Andaraí!

Não vou nem pedir para você imaginar Igatu porque é praticamente impossível imaginar Igatu. Mas faz um pequeno esforço de imaginação na sua cabeça e pense num lugar que você considera mágico, um lugar onde você sonha encontrar a paz e a tranqüilidade necessárias para refletir sobre si mesmo e sobre toda a sua vida, onde você gostaria de aprender a lidar de forma saudável com as coisas materiais e imateriais também e encontrar o equilíbrio necessário para enfrentar os efeitos e as dores do tempo.

Imaginou?

Pois se alegre. Esse lugar já existe. Esse lugar é Igatu!

Igatu, para mim, foi um dos pontos altos da viagem à Chapada. Entre tantos pontos altos, ela se destacou por um motivo especial: ela não é de todo bonita, como as atrações naturais que você encontra na Chapada ou como as cidades de Lençóis e Mucugê, cujas belezas arquitetônicas parecem ter sido produzidas e preservadas para servirem de cenário de novela de época da Globo. Se bem que, recentemente, Igatu também serviu de cenário para o filme Besouro, do diretor João Daniel Tikhomiroff, que conta a história de um famoso capoeirista da região. Mas Igatu, definitivamente, não é bela. Igatu é diferente. Diferente, não. Igatu é única. Você jamais conhecerá um lugar no mundo como Igatu! E olha que essa frase não é minha. É do Alcino, artista plástico e dono de uma famosa pousada em Lençóis (sobre a qual falarei em post específico), que já rodou meio-mundo desse “mundo velho sem porteira”!

No linguajar oficial do turismo baiano, Igatu é a Machu Pichu brasileira. Isso ajuda a entender um pouco o que é Igatu, já que a vilazinha é praticamente toda de pedra. Mas comparar Igatu a Machu Pichu pode frustrar quem se deixar levar pelo pé da letra da comparação. Tirando as construções de pedra, Igatu não tem nada a ver com Machu Pichu. Igatu não tem a história e o fascínio milenar de Machu Pichu. Igatu tem uma história e um fascínio que são próprios e só dela.

Como a maioria das cidades da Chapada, Igatu foi construída no século XVIII, no auge da exploração do diamante. Ali chegou a ser um dos maiores pólos de extração de diamante da região, com quase 25.000 habitantes. Mas a decadência abrupta da atividade e a geografia particularmente difícil da vila lhe imprimiram uma “triste” realidade a partir do século XX: o quase abandono. Igatu hoje possui apenas 400 habitantes, todos vivendo em função do turismo. Porque, no rastro do abandono, sobreveio o fascínio pelo incomum.

O turismo é, hoje, a principal – senão única – atividade a beneficiar os quase 400 moradores de Igatu. Mas não espere encontrar um turismo pujante e capaz de satisfazer a sede do turista tradicional (caso da maioria dos brasileiros) por passeios intermináveis que preencham as horas que deveriam ser de descanso. De Igatu até parte uma trilha bem famosa da Chapada: a Rampa do Caim, de onde se pode avistar o Vale do Paty. Mas eu volto a repetir. A principal atração de Igatu está em si mesma e na sua incomum realidade: uma vila, espremida no meio de montanhas, toda construída em pedras e quase abandonada.

Você só vai gostar de Igatu se tiver sensibilidade suficiente para perceber que a beleza de Igatu é para ser sentida, não observada! Igatu não é simétrica; Igatu é confusa. Igatu não é coerente; Igatu é contraditória. Igatu não é alegre; Igatu é sombria. E, por isso, eu digo: Igatu não está aí para encher seus olhos; ela existe apenas para, quem sabe?, marejá-los! E ponto.

Igatu parece ter estacionado no tempo. Por sorte, porém, o tempo em que Igatu parou se apresenta muito melhor do que o atual. Ao virar a cara para a modernidade, a vilazinha se protegeu dos males que ela traz consigo. É por isso que, ali, você encontra o cenário perfeito para um exercício de auto-reflexão e autoconhecimento. Se você parar para refletir, vai descobrir que todo esse arsenal de modernidades que te cercam nem são tão necessários assim.

Pergunta para essas senhorinhas simpáticas aí da foto se elas trocariam Igatu por algum outro lugar do mundo?

Se passear pelas ruas quase desertas de Igatu já teria sido suficiente para eu falar tudo isso sobre o lugar e não conseguir defini-lo, conhecer a Galeria de Arte e Memória de Igatu tornou aquilo lá ainda mais fascinante, extraordinário e inexplicável!

A Galeria é uma espécie de mini-Inhotim. Eu A-I-N-D-A não tive o privilégio de conhecer o Museu de Inhotim, em Minas Gerais, embora me sinta quase íntimo do lugar depois de ler e reler os relatos do Ricardo Freire, da Silvia Oliveira e do Rafael Mantesso publicados, respectivamente, no Viaje na Viagem, no Matraqueando e no Destemperados. Mas sei que, tal qual em Inhotim, na Galeria de Igatu você é convidado a entrar e passear por artefatos que contam a história da vila e por obras de inúmeros artistas que foram montadas ao ar livre. O espaço da Galeria é infinitamente menor que o do Museu de Inhotim, mas também surpreende: ele funciona sobre as ruínas de uma antiga casa de garimpeiro, toda feita em pedra!

A visita à Galeria pode ser coroada com um saboroso café na lanchonete que funciona anexa. Ali também se servem lanches e sanduíches a preços bem convidativos. Mas, no nosso caso, foi suficiente sorver uma garrafinha de café espresso, passado numa legítima cafeteira italiana, pagando módicos R$3,00.

Mas pode deixar! Eu não vou dizer que esse foi o café mais saborosamente inusitado que eu já experimentei em toda a minha vida! Não é para o café que eu tô procurando superlativos…

Na mesma rua que dá acesso à Galeria de Arte e Memória você pode conhecer também o cenário quase sombrio da igrejinha da vila – que é ladeada por um cemitério e por várias árvores “choronas” – e muitas outras ruínas de antigas casas de garimpeiro. Sinta-se explicitamente convidado a exercer o seu olhar fotográfico! Eu realmente acredito que elas foram postas ali pra isso!

Mas não pense que Igatu é, digamos assim, fácil de ser conquistada! Para chegar lá você vai ter que sacolejar o traseiro em estradinhas de pedra bastante acidentadas. São dois os acessos: a) um que liga Igatu a Mucugê, com 6 km de extensão, e que eu considero ser o mais complicado pela pequena largura da estrada (só passa um carro) e pela grande irregularidade do calçamento; e b) outro que liga Igatu a Andaraí, com 12 km de extensão, e que eu achei bem mais aprazível pelo estado de conservação da estrada e pela vista que se tem da vila e seus arredores.

Em alguns trechos dessa última estrada, nós paramos o carro para contemplar e tirar fotos, craro!

Já tô quase terminando o relato sobre a vila de Igatu e confesso que ainda não consegui encontrar o superlativo ideal para traduzi-la. Por isso, eu peço a ajuda dos universitários! Abro a caixa de comentários para os amigos leitores que quiserem me explicar Igatu!

Leia todos os posts da série “Outras Rotas” clicando aqui.

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comentários

22 respostas para “Alguém me explica Igatu?”

  1. Fernanda disse:

    Seus relatos sobre a Chapada!!! Pretendo ir em novembro… Estou ansiosa por novos posts!

  2. Karol disse:

    Do mundo ocidental??? Então eu preciso ir lá ver!!!! (Sonhos de uma mãe de 2 bebês praticamente). Bj.
    Continua!!!

  3. [...] 70 km de Lençóis (22 km em estrada de chão), que estacionou propositalmente no tempo (lembra de Igatu?). Mais precisamente, no tempo dos anos 60 e 70. Tudo porque, nessa época, um grupo de pessoas [...]

  4. Ninguém até agora “explicou” Xique-Xique de Igatu como você. Eu moro aqui há dez anos e sei do que falo.
    Estou “usando” vc como minha “testemunha” num caso que, muito infelizmente, não combina nada com Igatu… .
    Aí vai. Conto com seu apoio!
    Bela matéria a sua. Botei no finalzinho do meu blog: http://tocasdeigatu.blogspot.com/
    Grande abraço!

    • Oi, Edmauro! Que bom que gostou!
      Realmente, esse episódio é triste e não combina nada com Igatu.
      Torço para que tudo corra bem e que a Justiça seja feita!
      Abs,
      Tiago

    • Edmauro Gopfert disse:

      Caros amigos, que foram tão solidários nessa dolorosa procura de minhas filhas.
      ELAS JÁ ESTÃO COMIGO!!!
      Nós as encontramos, com a ajuda de gente comum, do povo, que denunciou os raptores e eu as encontrei! As meninas estão bem, foram apreendidas pela Justiça e logo estaremos de volta ao lindo povoado de Igatu. Muito obrigado a todos! Blogs como esse foram fundamentais na divulgação da notícia que ajudou a Justiça e à nossa família!
      Peço ao amigo solidário Tiago dos Reis, que tão sensível se mostrou ao encontrar e descrever Igatu, que retire do blog todos os meus apelos. Graças a Deus eles não são mais necessários. Meu muitíssimo obrigado a todos os que ajudaram para que houvesse esse final Feliz.

  5. A estradinha de 6 Km que liga Igatu à Boca da Mata (lugar de entroncamento com a BA que vai a Mucugê) está muito boa. Vale a pena. Bem lisinha. Só não corra, porque é estreita.

  6. Ana Paula disse:

    Oi Tiago,
    Olha, finalmente fiz a minha tão sonhada viagem para a chapada diamantina.
    Dos blogs que pesquisei para a minha ida, o seu, sem dúvidas é o melhor, pois você relatas os locais com uma precisão infinita, detalha tudo em uma linguagem ótima e, para completar, suas fotos são simplesmente perfeitas, pois passam a emoção do local. Você coloca detalhes q creio que por muitos não são observados. Adorei sua sensibilidade. Tem um post que você fotografou as flores no vaso sanitário. Achei isso incrível! O lugar tb é incrível…
    Mas bem, aproveitei algumas de suas dicas, pois meu tempo foi pequeno, apenas 5 dias. Mas foram maravilhosos!
    Igatu realmente é algo inexplicável. Uma cidade linda (emocionalmente falando), acolhedora, com pessoas maravilhosas morando lá! De todos os lugares que passei, Igatu foi um dos melhores. Fiz escalada em um labirinto de pedras com Rafael e Vanessa (Escalada Trekking). Excelente programação!
    Realmente Igatu é Show… vale dar uma passadinha… o acesso é um chacoalhar sem fim. Teve uma hora que, depois de muito andar (chegamos de noite), eu achei que não tinha condições de ter uma cidade alí no meio daquele monte de pedras mas…. finalmente, avista-se Igatu! Valeu muitíssimo a pena. Jantei no restaurante do Neo, comida deliciosa! e me hospedei na pousada Flor de Açucena. Excelentes!
    Repito, as pessoas da cidade são maravilhosas! Mega prestativas!

    Parabéns pelo seu blog, pelos detalhes das informações, pelas fotos, pela sensibilidade! Sempre que alguém me fala que quer ir na chapada eu falo para olhar seu blog porque a vontade vai aumentar!
    abçs

  7. Thais disse:

    Olá, vou ficar 7 noites na Chapada e estou em dúvida se fico uma ou duas em Igatu. O que você indica?

  8. Thais disse:

    Queria saber também se tem alguma indicação de pousada por lá. Obrigada!

  9. Carlos Silva disse:

    Fui a Igatu por causa de seu post, e minha sensação lá foi uma das mais intensas de toda minha viagem. Olhos marejados e coração grato a você por ter sido o gatilho dessa minha experiência. Obrigado!

  10. Alex disse:

    Cara, fui a Igatu num fim de tarde porque dois passeios “falharam”… Você conseguiu traduzir bem a sensação de estar lá. Tô voltando pra Chapada em maio de vou lá de novo. Xique-xique de Igatu e Morro do Pai Inácio dão uma paz indescritível só de estar lá. E você reposndeu uma pergunta que cansei de buscar e não obtive resposta até então. Se a rota de por Andaraí era melhor porque a de Mucugê é quase um parto para carros pequenos e baixos… Abraço

  11. ARANDY V.SANTOS(PEU) disse:

    OIII,SEMPRE QUE DOU UMA PASSEADA PELA NET EM BUSCA DE IGATU E DEPARO COM DECLARAÇÕES COMO AS SUAS SOBRE MINHA VILINHA A QUAL TENHO UMA LIGAÇÃO PROFUNDA SINTO-ME LISONJEADA PELO CARINHO E FICO PENSANDO SE VCS CONHECESSE MESMO, NOSSO DIA A DIA CARREGADO DE MUITA SIMPLICIDADE AI QUE IRIAM SE MARAVILHAR MAIS AINDA.. TENHO ORGULHO DE DIZER QUE NÓS VIVEMOS UMA VIDA TÃO SIMPLES QUE ESTAMOS CAMINHANDO CONTRÁRIO EM MUITOS ASPECTOS AO QUE DITA O SISTEMA…QUE É CRUEL E TEM ESMAGADO AS PESSOAS NAS METRÓPOLES DO NOSSO PAÍS…
    ABRAÇOS
    PEU

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