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Crédito: Fred Ayres

O Pico da Bandeira é, de longe, o principal atrativo da Rota do Caparaó Capixaba. Subir até o seu cume, a 2.890 metros de altitude, é o objetivo de 10 entre 10 turistas que visitam a região. E não é pra menos. Todo mundo quer ver com os próprios olhos o que se vê de cima do ponto mais alto do país.

Tudo bem. Eu sei que, geologicamente falando, o Pico da Bandeira não é o ponto mais alto do país. O Pico da Neblina, do alto de seus 2.993 metros, e o seu vizinho 31 de Março, com seus 2.992 metros, estão aí para estragar a nossa festa classificatória. Mas, a não ser que você encare ir até Manaus, viajar 800 km até a aldeia ianomâmi de Maturacá, subir o rio Cauaburi em canoa motorizada até o Igarapé Tucano e, depois, caminhar por mais 4 dias até o topo dos dois picos, vai ter que concordar comigo que o Pico da Bandeira é, sim, o ponto mais acessivelmente alto do país. E ponto.

Pra que sofrer tanto por causa de míseros 100 metros a mais, não é mesmo? :-D

Crédito: Fred Ayres

E o melhor de tudo é que nós, capixabas, nem precisamos mais sair do Estado e ir para Minas Gerais para se sentir por cima da cocada preta lá no topo do Pico da Bandeira. É que, desde 1998, o monopólio da trilha mineira foi definitivamente quebrado com a abertura de uma trilha também pelo lado capixaba. Com isso, ficou bem mais fácil “capixabizar” o pico!!!

Fácil é maneira de dizer. Subir o Pico da Bandeira está longe de ser fácil. Para mim, essa foi a trilha mais difícil que fiz até hoje. Acumulei uma relativa experiência em trilhas nas minhas últimas viagens pelo Brasil, incluindo a Chapada Diamantina (que você acompanhou aqui) e os Canyons do Parque Nacional dos Aparados da Serra e Serra Geral, na divisa do Rio Grande do Sul com Santa Catarina. Mas, no quesito “língua pra fora”, nenhuma delas foi páreo para a trilha do Pico da Bandeira.

O percurso da trilha capixaba é bastante acidentado e íngreme. Na subida, a gente sofre com a falta de ar por causa da altitude, já que a caminhada começa a mais de 2.100 metros de altura. Na descida, o obstáculo é outro: o impacto no joelho e a tensão nas costas e no pescoço por ter que ficar olhando o tempo todo para baixo (no nosso caso, a tensão era ainda maior por estar chovendo). Não vou negar: após 7 horas de subida e descida, eu cheguei um caco ao final do passeio.

Quem já subiu o pico pelos dois lados diz que a trilha mineira é mais fácil. Por lá, você caminha mais (no total são 9 km de caminhada), mas a subida mais pesada se concentra nos 2 km finais. No Espírito Santo, os 4,2 km de caminhada são de subida forte, como eu falei. Mas, por isso mesmo, diz-se que, por aqui, o visual da trilha é mais belo e dramático. Você já começa andando bem no topo das montanhas e, em quase todo o percurso, tem uma visão bem mais ampla da paisagem.

Crédito: Fred Ayres

Você só precisa entrar em um acordo prévio com São Pedro para ele não estragar a sua festa! A minha foi pro brejo nas duas vezes que eu subi o pico. Na primeira, por Minas Gerais, eu sequer consegui chegar ao topo por causa de um chuva torrencial que caiu quando eu estava no finalzinho do percurso. Nessa última, a chuva fina não chegou a me impedir de alcançar o topo, mas o tempo nublado tapou completamente a paisagem.

O resultado foi esse:

Não foi a subida que eu imaginava, claro! Mas presenciar, de pertinho, aquele vai-e-vem de nuvens até que foi legal. Foi como se eu fizesse parte de um fenômeno meteorológico. Bastavam 15 minutos para um vale ser totalmente encoberto por uma neblina intensa. E depois mais 15 minutos para essa neblina se dissipar. E na maior parte do tempo, nós estávamos acima das nuvens!!

Mas eu sei que a grande maioria dos visitantes não quer subir o pico apenas para vivenciar uma aula prática de meteorologia (eu também não queria!). Por isso, se você não tem acesso direto com São Pedro, o melhor mesmo é apostar nos períodos de menor incidência de chuvas. O inverno, especialmente o mês de julho, é a melhor época. Mas se prepare para enfrentar um frio congelante. Lá em cima, as temperaturas chegam a ficar negativas.

De qualquer forma, com chuva ou sem chuva, a trilha pode ser apreciada também sob outra ótica: a da flora. Não precisa nem ser botânico para se encantar com as mil e uma flores que a gente encontra pelo caminho:

Vale lembrar que o Parque Nacional do Caparaó abriga uma das maiores e mais importantes reservas de mata atlântica do país! E no lado capixaba, a vegetação é ainda mais exuberante por causa do clima mais úmido.

Além disso, nada substitui a incrível sensação de liberdade e poder que se tem ao chegar em cima do pico. É como se você estivesse no lugar mais privilegiado do país, assistindo a tudo e a todos de camarote. Ninguém há de te reprovar se você pensar que, por alguns instantes, tem o Brasil aos seus pés. Mas deixa eu mudar logo de assunto antes que isso aqui descambe para um arremedo de auto-ajuda!

Voltando ao que interessa… a portaria capixaba do Parque está localizada a aproximadamente 9 km do Distrito de Pedra Menina, em Dores do Rio Preto. Digamos que Pedra Menina é a principal base do Caparaó Capixaba. No seu entorno estão os principais empreendimentos do trade turístico da região, incluindo a Pousada Villa Januária, onde nos hospedamos e sobre a qual falarei no próximo post.

A portaria funciona das 07h às 22h. Para entrar no Parque paga-se uma taxa de visitação de 11 reais por pessoa. A partir daí, pode-se seguir de carro por mais 9 km em estrada parcialmente pavimentada até o lugar conhecido como Casa Queimada.

O trajeto até a Casa Queimada possui alguns pontos reservados para… churrasco!!! Eu realmente não entendo como pode ser permitida a realização de churrasco (leia-se: fogo) no meio de um parque nacional. Mas eu não vou entrar nessa discussão para não parecer ranzinza demais.

Além disso, ao longo do caminho, há trilhas que levam a três cachoeiras que nascem dentro do Parque: a Cachoeira da Farofa, a do Sete Pilões e a do Aurélio. Tá aí mais uma “regalia” que só se tem na trilha capixaba.

A Casa Queimada é a versão capixaba do Terreirão, de Minas. Nela há banheiros e uma área para acampamento, onde os visitantes podem passar a noite. Acampar no parque é obrigatório para aqueles que desejam assistir o nascer-do-sol de cima do pico. É que, para isso, a trilha deve ser percorrida durante a madrugada. E, como a portaria do parque fecha às 22h, você precisa entrar lá antes desse horário.

Quem já foi garante. Não há nascer-do-sol mais bonito que esse no Brasil:

Crédito: Fred Ayres

E é bom lembrar que o sol nasce sob o mar do Espírito Santo, ok? ;-)

A partir da Casa Queimada começa a escalaminhada. Como eu já disse, são 4,2 km até o topo do pico. Ao longo do trajeto, algumas placas sinalizam a distância e o caminho. Mas eu não seria irresponsável de dizer que o percurso é auto-guiado. Embora muita gente o faça sozinho, por razões de segurança eu aconselho a contratação de um condutor, cuja diária, na época em que fui, saía a 80 reais para até 6 pessoas. Procure a Agência Serra do Caparaó Eco Tur, em Pedra Menina, para maiores informações (28 3559 3082).

Considere gastar de 2 a 3 horas para chegar ao topo. Em alguns trechos do percurso há sinal de celular. Leve o seu consigo e aproveite esses momentos para aquela clássica “zoada” com amigos e familiares. Sabe aquela coisa de “I’m the king of the worlllllld!!!!“? Pois é. Não tem hora mais apropriada para usá-la. ;-)

A 50 metros da chegada ao topo do Pico da Bandeira as duas trilhas (mineira e capixaba) se encontram. Mas só quem veio pelo Espírito Santo já terá passado por cima do Pico do Calçado, a quinta montanha mais alta do país, com 2.849 metros de altitude. Que privilégio, não?

Ao chegar em cima do Pico da Bandeira, não se assuste com a farra dos outros. Faça a sua. Mais que uma prova de resistência, chegar ali é um privilégio. Celebre a emoção de chegar ao ponto mais (acessivelmente) alto do país. E não se esqueça que você está no Espírito Santo!!!

Crédito: Fred Ayres

P.S.: agradeço ao Fred Ayres que, gentilmente, cedeu as fotos que “salvaram” esse post!

6 Responses to “A subida ao Pico da Bandeira pelo Espírito Santo”

  1. Oi, Tiago!

    Seu post foi selecionado para a #Viajosfera, do Viaje na Viagem.
    Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Até mais,
    Bóia

  2. BRENO disse:

    Maravilha heim.. começar a encher o saco dos amigos em 3..2..1…

  3. Sônia disse:

    Você escreve muito bem! Parabéns! Att

  4. [...] E um final de semana sem carne não mata ninguém!Para quem vai à trilha do Pico da Bandeira (veja aqui), a Cecilia oferece um kit lanche para recarregar as energias. Basta pedir com antecedência. O [...]

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