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21
ago
2012

Meu avô era blogueiro!

Os meus avós Reis e Djanira

Sempre ouvi de familiares e amigos que eu era “igualzim” ao meu avô paterno, o saudoso Vô Reis. Não no sentido físico da coisa, entenda-se. Mas pelo nosso “jeito de ser”. Dizem os mais próximos que eu puxei alguns hábitos dele, como a pontualidade extrema e o gosto pela leitura.

Verdadeira ou não, eu tenho um orgulho danado dessa associação. Afinal, eu sou fã do meu vô Reis (eu e toda a minha família, diga-se de passagem!). Eu poderia ficar horas aqui tentando justificar esse orgulho todo falando do avô insuperável que ele foi e das mil e uma coisas que ele fazia para agradar os seus netos. Mas isso não vem ao caso. Para os fins desse post, o que importa mesmo é revelar mais uma feliz coincidência que eu encontrei entre mim e o meu avô: ele também era blogueiro. E blogueiro de viagem, para ser mais exato!

Falo isso por causa desse diário:

Esse diário de 70 páginas foi escrito por meu avô durante a sua viagem à Europa no ano de 1966. Foi um pedido da sua filha, a minha Tia Eia, plenamente atendido para que “ela e toda a família participem também das emoções desta viagem a tanto tempo esperada” (há inspiração maior para um blogueiro?). O “a tanto tempo esperada” tem uma explicação: aquela seria a sua primeira viagem à Europa desde a sua chegada ao Brasil em 1926.

Se viajar ao velho continente já é uma emoção para qualquer um, imagina para quem foi obrigado a deixar o seu país de origem, Portugal, “com 13 anos, 40 centavos no bolso e muita ilusão no coração” – como ele mesmo dizia – atrás de uma nova vida? Por isso, os dois meses em que ele ficou na Europa foram divididos entre uma excursão por Espanha e França e uma longa estada em Portugal para resgatar suas origens.

A promessa feita à filha foi cumprida na íntegra. Ele registrou, um a um, todos os dias da viagem em ordem sequencial. Tem de tudo: de descrições minuciosas das paisagens que mais o emocionaram a relatos das conversas que ele mantinha com algum companheiro de excursão, passando pelas tradicionais roubadas de marinheiro de primeira viagem e, claro, pelas dicas de um marinheiro de primeira viagem metido a veterano (como todo blogueiro, ué? :-D).

Como você pode imaginar, Portugal ocupa boa parte do blog, ops… diário de viagem do meu avô. Essa é, digamos assim, a parte sentimental do seu diário, a parte em que ele lida com lembranças que ele quase nunca revelava.

“Dia 31 de agosto de 1966. Estamos correndo a 80, 100 e 120 e o excesso de velocidade não me dá tempo de preparo espiritual para receber o impacto emocional da aldeia próxima que pouco a pouco se vai delineando no horizonte que tem como pano de fundo a serra do Marão e onde em sua encosta se acha encravado o pequeno presépio de casas que se chama Fornelos, berço da minha infância e saudade da minha alma.

Dia 01 de setembro de 1996. […] Ao longo de todo o trajeto percorrido encontramos pessoas curiosas de me verem e falar quando todas afirmam que me conheceram uma criança e se esforçam por recordar de minha tenra infância perambulando por estas ruas entregue à minha própria sorte. Todos são delicados e se esforçam por ocultar-me as impressões que lhes causavam esta minha triste condição, até que D. Tereza Santos de saudosa memória, tomasse conta de mim e me fizesse o homem que hoje sou.”

Esse “sentimentalismo” todo, próprio de um homem que amava as letras e a poesia, se repete em várias partes do diário, em momentos de melancolia ou de puro deslumbramento. Melancólica, por exemplo, foi a sua descrição do momento em que ele foi barrado na porta de um cassino em Lisboa pelo fato de ser português:

“Dia 08 de agosto de 1966. […] Foi então nesta noite que me pareceu uma das mais belas de Lisboa, capital do meu país, que sofri a primeira e grande desilusão de ser português, pois, por tal condição, sou impedido de entrar no cassino do balneário onde só entram estrangeiros e aos portugueses está reservado um tal aparato de documentos a preencher que os próprios funcionários nos aconselham a desistir. Calcule-se a minha humilhação diante dos brasileiros que me acompanhavam, a fatalidade de ser português, impedido de frequentar um recinto público em Portugal, feito por portugueses mas que não pode ser frequentado por estes. Pela primeira vez, sinto vergonha de ser português, povo que se humilha a ponto de se desprezar a si próprio. Aliás já não é esta primeira vez que sinto esta amarga desilusão. Em outras oportunidades tive de lançar mão da condição de meu sotaque para, como brasileiros falsificado, usufruir de algumas vantagens e considerações que só são tributadas aos estrangeiros. É pena, mas é verdade.

Já nessa outra passagem, o tom é de puro deslumbramento com a travessia da fronteira da Espanha com a França e a visão dos Pirineus:

“Dia 21 de agosto de 1966. […] Logo que a gente se aproxima da fronteira espanhola em Jaca, para entrarmos em Pau, na França, a paisagem muda com a mesma rapidez do idioma. Começa então a aparecer a Cordilheira dos Pirineus em toda a sua imponência. Encostas íngremes pontilhadas aqui e ali de picos altíssimos, onde, apesar do verão e por entre a névoa permanente, se divisam os gelos eternos. É um espetáculo deslumbrante para quem, como eu, o vê pela primeira vez. Sinto-me estático diante da apoteose que descortina diante dos meus olhos. É a natureza em toda a sua grandeza de mãos dadas com o homem, pois que, aqui e ali, se vê a força incontrolável da imaginação e inteligência humana representada pela estrada de ferro quase pendurada nesses imensos morros furados por inúmeros tuneis. São pequenas povoações incrustadas em suas fraldas mais parecendo presépios coloridos.”

Aliás, o seu deslumbramento chega ao ápice em Paris. A ela, ele dedica os trechos mais apaixonados do seu diário:

“Nada mais me interessa senão Paris. Paisagens, detalhes, comentários sobre este trecho da viagem não merecem registro ante a expectativa de que todos estão possuídos de chegar a Paris.”

“As sensações que sentimos em Paris são tão grandes e variadas que me custa a concentrar e compor a imaginação para registrar o que se passa a cada dia.”

“Penúltimo dia em Paris que já nos vai deixando saudades e de bolsos vazios, mas com a cabeça cheia de fantasias.”

“Às 13:15 horas precisamente tomamos o ônibus e deixamos Paris. Atrás de nós fica, para encanto de quantos a visitam, a cidade sonho. Ficam os museus, parques e castelos, Torre Eiffel, Arco do Triunfo, o rio Sena, seus românticos namorados, os grandes boulevards de Saint Germain dês Prés e Campos Elísios, o bairro das celebridades políticas e artistas, como Juscelino Kubstchek, Quartier Latin, Brigitte Bardot, Maurice Chevalier e tantas outras atrações que deixamos de ver por falta de tempo. Voltamos do Paraíso para onde fomos nas asas da fantasia e acordar na realidade terrestre, dentro do ônibus às voltas com as malas e francos.”

Impossível não enxergar em mim esse “sentimentalismo” do meu avô. Assim como a sua “rabugice”. Em vários momentos ele se mostra tão ranzinza quanto eu, como nesse trecho em que ele teoriza sobre os taxistas europeus após passar por um pequeno perrengue na cidade de Sevilha, na Espanha:

“Dia 1 de agosto de 1966. À saída da estação rodoviária o táxi é problemático e pela dificuldade do arranjar lembra-nos a saída do Maracanã em dias de jogo Vasco X Flamengo (com a vitória daquele é claro) em que todo o vascaíno deseja regressar de taxi para mais depressa festejar a vitória do seu clube. Aliás, o problema “TAXI” é difícil de resolver em qualquer lugar da Europa. Caros, difíceis e mal-humorados. Esta classe de motoristas parece formar uma sociedade universal de gente mal educada que, como cartão de visita, deixa mal qualquer país que explora com carinho a indústria turística. Serve para contrabalançar, com seu lado negativo, aquilo que o turista espera e consegue da cidade que visita. Não há distinção: em Lisboa, Londres, Paris, Rio ou Sevilha, os motoristas são os mesmos cavalos.”

E nesse, em que ele confessa se “vingar” da dona de um restaurante que o atendeu mal:

“Esclareço que, durante o almoço apliquei um pequeno truque aos garçons que me serviam, que haviam presenciado a discussão, dizendo-lhes que era um jornalista e repórter brasileiro que andava em Portugal colhendo dados das paisagens, usos, costumes e acolhimento do povo português, para vários jornais e revistas brasileiras e que não poderia de forma alguma fazer boas referências do tratamento recebido na Estalagem D. José que, diga-se de passagem, era bem moderna e confortável. Pretendi com este truque acalmar os nervos de tão irritante senhora para que outros, como eu, não sofram tão amarga desilusão; e por que não dizer, vingar-me também embora com uma leve mentira, da afronta recebida.”

Quem me conhece sabe que eu faria igualzinho! 😀

Por fim, eu não posso deixar de transcrever o meu trecho favorito, aquele em que ele descreve o seu retorno ao Brasil. Era 10 de setembro de 1966:

“As primeiras horas da madrugada de domingo são de sono, enfado e bebidas. Não descansamos muito porque a todo instante tem uma aeromoça nos oferecendo qualquer coisa e, quando nada tem, oferecem sorrisos.

Mas algo estava para acontecer nesta monotonia que nos cerca e esse algo apareceu quase inesperadamente com o raiar da madrugada. São aproximadamente 4 horas da madrugada, o avião desliza sereno a 10.000 metros de altura, o silencio a bordo é absoluto com uma pequena perturbação das turbinas do jato que nos dão uma suave sensação de moleza e embalam o nosso sono. Mas o raiar da madrugada nestas alturas é algo de maravilhoso e fantástico.

O sol muito rubro, levantando-se suave e timidamente, mais parecendo uma enorme cabeça, muito vermelha espreitando, pela enorme janela que são as nuvens bem lá abaixo. A luz intensamente encarnada espalha-se pelas nuvens dando-lhe um colorido alaranjado e formando uma larga e extensa fita dessa cor. As sombras provocadas pelas nuvens mais próximas adquirem tonalidades variadas e contornos geográficos de todos os acidentes que se conhecem, iludindo-nos com a perfeição de suas formas das quais nos mostram imensas e grandiosas rochas cobertas de neve, rios, desertos de areia e suas dunas, baias, cabos, promontórios, penínsulas e castelãs fantasmagóricos. Vastas planícies e frondosas floretas são delineadas em nossa imaginação já que tudo isto nada é mais do que as formas adquiridas pelas nuvens estáticas. É um espetáculo grandioso este alvorecer nas alturas que nos prende à janela do avião extasiados.

Começa então a vida novamente no recinto em que nos encontramos. Um que se espreguiça, outro que se levanta, uma criança que chora, outra grita. Enfim, é o retorno á vida que parou por algumas horas e que também nos acorda do êxtase em que me encontro. É o café que vem numa bandeja repleta de iguarias, é a toalha quente para passar no rosto e nas mãos, é o Rio que se aproxima tão desejado.”

44 anos separam o diário do meu avô da criação do “Rotas”. Muita coisa mudou de lá pra cá, é certo, a começar pelas formas e plataformas. Nem o teclado da Olivetti que o meu avô usava lembra mais o do notebook em que agora eu escrevo. Mas, diferenças à parte, uma coisa é inegável: em 1966 ou em 2010, nós dois quisemos compartilhar com quem quer que seja as nossas impressões de viagem. E isso é o que nos faz – e nos une – como blogueiros de viagem!

Dedico esse post à memória de meu avô, José Reis, o vô Reis. E não posso deixar de agradecer a duas pessoas, em especial: à minha Tia Eia, dona do diário, que gentilmente me emprestou o seu tesouro; e à Ana Oliveira, do blog Psiulândia, que me fez relembrar essa feliz coincidência ao publicar esse post.

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comentários

23 respostas para “Meu avô era blogueiro!”

  1. Lorenzo disse:

    Tiago
    Fiquei com lágrimas nos olhos ao ler seu post. Realmente emocionante.
    Parabéns pelo resgate deste texto tão valioso para vocês.
    Sugiro inclusive que vocês podem transformar em livro, pelo menos interno à família.
    Abraço
    Lorenzo

  2. Que delícia de diário, Tiago! Seu avô era um poeta! Concordo com Lorenzo: essa preciosidade deveria virar um livro! Uma história assim, emocionante e tão rica em detalhes, não pode se perder.

  3. Ricardo disse:

    Bela homenagem. Grande abraço.

  4. Pessoal,
    Agradeço muitíssimo a visita de vocês.
    E não se preocupem. Eu estou providenciando a restauração do diário e a sua reprodução para todos os familiares. Ele merece ser compartilhado e guardado como recordação por todos!
    Abs

  5. Marcie disse:

    Sensacional! Que tesouro, este!

    Adorei, Tiago. 🙂

  6. Tiago, que post lindo, me emocionou! Super importante este resgate histórico e familiar. Tenho certeza que seu avô, onde estiver, está feliz com a homenagem 🙂

  7. Mari Campos disse:

    Que delícia de post, Tiago! Emocionante mesmo fazer dessa coincidência/afinidade entre vocês uma homenagem tão bacana ao seu avô. E que delícia ver as páginas amareladas tão marcadas pela Olivetti <3 Parabéns!

  8. Débora Bordin disse:

    Que lindo relato!
    Realmente muito emocionante. Parabéns pelo amor, pelo avô, pela família, pelo blog e pela iniciativa de nos contar essa bela história 🙂

  9. Flavia Heringer disse:

    Que lindo post, Tiago! E quanta semelhança com seu avô! Parabéns pela homenagem!
    Beijos.

  10. Maryanne disse:

    Tiago, como seu avô escrevia bem! Tô impressionada com as descrições, detalhes e tudo. Adorei tb qdo ele fala do serviço a bordo da época, vc imagina alguém escrevendo isso hoje em dia? Parabéns, texto incrível.

  11. Flora disse:

    Lindo o post! E o da Ana que te inpirou também.

  12. Ana disse:

    Tiago, só agora consegui ler seu post! Uma delícia, depois de um dia de tanto trabalho! Parabéns pelo texto emocionante e pela preciosidade do diário. E olha, acho que merece uma edição em livro, viu?
    Por último, muitíssimo obrigada pela referência ao meu post!

  13. Liliana disse:

    Coisa linda este post! Emocionante mesmo.

  14. Carmem disse:

    Menino, você tem a quem puxar!
    Parabéns!

  15. Pessoal,
    Fico muito lisonjeado com os comentários de vocês. Muito mesmo!
    Obrigado pela visita!

  16. Wanessa disse:

    Nossa, que tesouro, esse diário!
    Seu avô escrevia lindamente. Obrigada por compartilhar uma lembrança tão pessoal.

  17. […] Meu avô era blogueiro – Um texto lindo, onde o Tiago mostra como seu avô, além de ser um “blogueiro da época”, era também poeta. Vale a pena ler. […]

  18. Incrível esse post. Daqueles que você fica perplexo e emocionado! Linda história, Tiago.

  19. Karol disse:

    Precioso.
    Já apresentou para alguma editora?

  20. Enfim, Paris! disse:

    […] pelo meu avô em 23 de agosto de 1966 no seu famoso diário de viagem que eu lhes apresentei aqui. Incrivelmente, a sensação que meu avô descreveu há 46 anos foi exatamente a mesma que eu e a […]

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