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15
dez
2015

O turismo às margens do Rio Doce

Eu, com o Rio Doce ao fundo, em algum lugar entre Colatina e Baixo Guandu no ano de 2001.

Eu, com o Rio Doce ao fundo, entre Colatina e Baixo Guandu no ano de 2001.

Olho com especial tristeza para a tragédia que assolou o Rio Doce. Nasci e cresci às margens do rio em Minas Gerais. Sou natural de Coronel Fabriciano e passei a maior parte da minha infância e adolescência entre Ipatinga e Governador Valadares – três cidades que são cortadas pelo rio. Em 1998, com 17 anos de idade, segui simbolicamente o seu curso e vim para o Espírito Santo, de onde não saí mais. Desde então, continuei transitando por suas margens entre idas e vindas de Minas para visitar meus pais, que atualmente moram na área rural de Conselheiro Pena, outra cidade à beira do rio.

De alguma maneira, pois, minha vida sempre esteve ligada afetivamente ao Rio Doce. E é por isso que essa tragédia me comoveu tanto. Ver a mudança brutal do cenário a que eu estava acostumado e, principalmente, o tanto de vida que está se esvaindo em meio à lama da Samarco/Vale derramada sobre o Rio Doce tem partido o meu coração.

Eu sei que os prejuízos gerados por essa tragédia são incontáveis e afetam inúmeros aspectos da vida humana: desde o (des)equilíbrio ecológico dessa particular biota até o abastecimento de água das cidades margeadas pelo rio. Mas o motivo desse meu post é chamar a sua atenção para um desses aspectos que tem tudo a ver com o Rotas, claro: o turismo. Eu queria mostrar pra você o potencial turístico que existe às margens do Rio Doce e que, possivelmente, também será impactado por esse acontecimento. Faço isso com um aperto no coração por não saber ao certo o futuro daqueles atrativos ligados diretamente ao rio, como é o caso da vila de Regência, no Espírito Santo. Mas faço isso também com uma pontinha de esperança de que o incentivo ao turismo local seja uma aposta para a recuperação do meio-ambiente e da economia das cidades ribeirinhas.

Porque não?

Numa situação dessas, é natural querer cancelar viagens ou mesmo evitar a ida para os lugares afetados. Afinal, é mais do que compreensível o medo da incerteza sobre o real impacto e as consequências da tragédia naqueles locais. Regência, por exemplo, tá vivendo na pele essa debandada de turistas. Estima-se que mais de 80% das reservas nas pousadas da vila para o período de réveillon tenham sido canceladas. Mas, talvez, esse sentimento de solidariedade que vem se espalhando Brasil afora em torno da situação do Rio Doce – e das populações que vivem dele – possa alimentar também o desejo de contribuir de forma mais contundente para o aquecimento da economia local.

Daí a ideia de fazer esse post. Eu queria mostrar pra vocês o tanto de coisa legal que se fazia – e ainda dá pra fazer – às margens do Rio Doce. No embalo da fama que o rio alcançou Brasil afora por conta da tragédia, eu quero despertar em você a vontade de conhecer as atrações que a gente encontra em suas margens para que, assim, a gente faça girar a roda da economia e ajude a minimizar os prejuízos advindos do rompimento das barragens de Bento Rodrigues.

É um post tanto quanto pretensioso, eu sei. Mas é mais uma forma que eu encontrei de ajudar o rio que me é tão caro.

Você sabe que tudo isso começou com o rompimento das barragens da Samarco/Vale no distrito de Bento Rodrigues, pertencente à cidade de Mariana. Mas, tecnicamente, Mariana não está às margens do Rio Doce. A lama chegou até ele através dos Rios Gualaxu e Do Carmo, que fazem parte da mesma bacia. É por isso que eu não a incluo nesse passeio. O que não me impede, porém, de te remeter aos posts da Camila Navarro, do Viaggiando, e da Silvia Oliveira, do Matraqueando, que mostram todas as riquezas e atrações da cidade. Mais do que nunca, Mariana precisará da força do turismo para compensar o baque – ainda que transitório – na sua principal atividade econômica (curiosamente, a responsável por toda essa tragédia): a mineração.

Mariana (Foto: Silvia Oliveira, do Matraqueando)

Mariana (Foto: Silvia Oliveira, do Matraqueando)

Com a licença de Mariana, eu começo o meu passeio pelo turismo do Rio Doce por uma das cidades que mais sofreu (e ainda sofre) com o desabastecimento de água após a tragédia: Governador Valadares.

Valadares – você deve saber – ficou nacionalmente conhecida pela grande quantidade de moradores que foram para os EUA na década de 80 inspirados no famoso american way of life. Mas o que você talvez não saiba é que Valadares ganhou fama internacional por ter um dos melhores pontos de vôo livre do mundo É esse pico aí, o famoso Ibituruna:

Foto: Monalisa Toledo de Lima

Foto: Monalisa Toledo de Lima

Do alto dos seus 1.123 metros, o Ibituruna reina no skyline de Valadares. Lá em cima, você pode se jogar de asa-delta ou simplesmente apreciar a vista (até então) belíssima do Rio Doce.

Foto: Valdeci Antonio Pereira Prates

Foto: Valdeci Antonio Pereira Prates

Não são raras as competições de vôo livre na cidade, principalmente de janeiro a abril. Em 2016 uma etapa do campeonato mundial de parapente está programada para acontecer na cidade.

Lá embaixo, os melhores lugares para curtir a noite valadarense são o centro ou a Ilha dos Araújos, bairro nobre da cidade que tem esse nome por estar situado numa ilha bem no meio do Rio Doce. Um calçadão contorna todo o bairro e faz as vezes de orla, proporcionando um espaço ao ar livre para práticas esportivas.

Seguindo pela BR 259 em direção ao Espírito Santo, você chega à pequenina cidade de Resplendor, recheada de boas atrações.

Foto: Prefeitura de Resplendor

Foto: Prefeitura de Resplendor

O passeio de chalana pelo Rio Doce é (era) o mais famoso deles. Você embarca(va) numa pequena balsa que sai de um restaurante flutuante e navega(va) por aproximadamente 30 minutos ao longo do Rio Doce.

Para fazer o passeio, é só entrar em contato com o pessoal do Brasília Hotel, que funciona como uma espécie de agência de viagem local. Eles tem até um pacote redondinho para os turistas capixabas interessados em curtir com a família a viagem no trem de passageiros da… Vale (!), que liga Vitória a BH. Dá pra ir no sábado e voltar no domingo.

Outra opção de passeio em Resplendor é a visita à aldeia dos índios krenaks, descendentes dos botocudos e pioneiros na região. Obviamente, a situação atual na aldeia não é muito tranquila porque os índios dependem diretamente do rio e estão em constante mobilização para reparação dos prejuízos (por isso, é bom procurar se informar antes de ir). Mas, fora isso, você pode ir até lá para ver os costumes e o modo de vida dos índios.

Foto: Prefeitura de Resplendor

Foto: Prefeitura de Resplendor

Já para os mais aventureiros a trilha que leva ao Parque Estadual Sete Salões é a melhor pedida. O nome é uma alusão aos “sete salões” que ficam escondidos dentro de um grande maciço rochoso. Dentro deles há registro de figuras rupestres atribuídas aos antepassados dos índios krenaks.

Parque Estadual Sete Salões (Foto: Eliton Ferreira)

Parque Estadual Sete Salões (Foto: Eliton Ferreira)

Um pouquinho mais adiante na BR 259 você chega a Aimorés, última cidade de Minas Gerais antes da divisa com o Espírito Santo. É aí que fica a sede do famoso (e agora polêmico) Instituto Terra, do também famoso fotógrafo Sebastião Salgado. Um lugar que vem promovendo um belíssimo trabalho de recuperação da mata atlântica e que, mais recentemente, desenvolveu um projeto de reflorestamento das matas ciliares e proteção das nascentes do Rio Doce (e que, mais do que nunca, precisará sair do papel).

Eu não vou entrar na polêmica sobre a relação do Sebastião Salgado e seu Instituto com a Vale, sócia da Samarco, dona da barragem que se rompeu em Bento Rodrigues. Eu só quero destacar que, independente de quaisquer relações promíscuas, o trabalho que o Instituto Terra desenvolve é belíssimo e vale a pena ser conhecido.

Eu o conheci bem no início de sua fundação, em 2001. Desde aquela época eu me surpreendi com a transformação que eles vem proporcionando na cobertura vegetal da região. Os registros fotográficos do “antes” e “depois” da antiga fazenda de gado do pai de Sebastião são impressionantes.

A sede do Instituto Terra em 1999 (Foto: Divulgação)

A sede do Instituto Terra em 1999 (Foto: Divulgação)

O que era pasto virou uma linda e densa floresta.

Foto: Divulgação

A sede do Instituto Terra em 2011 (Foto: Divulgação)

O Instituto Terra fica bem na saída de Aimorés para Baixo Guandu e vale a visita para conhecer de perto o trabalho que eles desenvolvem.

Seguindo na BR 259 por 5 km depois de Aimorés, você chega ao primeiro município do Espírito Santo: Baixo Guandu. A cidade é bem pequena, mas possui alguns atrativos bem interessantes, como a Rampa do Monjolo, a Pedra do Sousa e a Capela do Divino.

Foto: Letícia Vieira (Blog É Logo Ali)

Foto: Letícia Vieira (Blog É Logo Ali)

Para conhecer todas as atrações da cidade, vale a pena ler a série de posts que a Letícia Vieira, do blog É logo ali, fez sobre Baixo Guandu.

Antes de chegar ao fim da BR 259, você passará por Colatina, uma das maiores cidades do interior do Espírito Santo. Reza a lenda que, na década de 60, a revista americana Time elegeu o pôr-do-sol de Colatina um dos mais bonitos do mundo.

Foto: Liz Marion (CC BY-NC 2.0)

Foto: Liz Marion (CC BY-NC 2.0)

Não posso confirmar a procedência dessa afirmação. Mas o pôr-do-sol visto das margens do Rio Doce na cidade é mesmo lindo.

Por fim, a gente chega ao município de Linhares, já na BR 101, sentido norte. Aí você tem um sem-número de atrações naturais e rurais. Só para você ter uma ideia, a cidade possui o maior número de lagoas da América Latina, incluindo a segunda maior em volume de água doce do Brasil, a Juparanã.

Lagoa Juparanã (Foto: Prefeitura de Linhares)

Lagoa Juparanã (Foto: Prefeitura de Linhares)

A maioria delas pode ser facilmente visitada e são uma boa pedida para a prática de esportes náuticos.

Além das lagoas, Linhares também guarda outros 2 grandes refúgios ecológicos: a Floresta Nacional dos Goytacazes e a Reserva Natural da… Vale (!). Elas ficam um pouco afastadas da sede da cidade, seguindo pela BR 101 no sentido norte, mas são ótimas opções de passeio para quem se interessa por natureza.

Na Floresta dos Goytacazes é possível conhecer um pouco da fauna e flora locais percorrendo 2 trilhas: a curta e a longa (que depende de agendamento). Trata-se da maior floresta urbana do Espírito Santo e a terceira maior do Brasil.

Já a Reserva mantida pela Vale é bem mais estruturada para receber turistas, per supuesto. No centro de visitantes tem parque infantil, brinquedoteca, salas para oficinas, restaurante e até um pequeno hotel para quem quer passar pela experiência de se hospedar em meio à mata.

O hotel da Reserva (Foto: Divulgação)

O hotel da Reserva (Foto: Divulgação)

Além disso, você pode percorrer as trilhas temáticas e agendar um passeio para observação de pássaros. Atualmente, encontram-se catalogadas 390 espécies de aves na reserva.

Foto: Claudio Dias Timm (CC BY-NC 2.0)

Foto: Claudio Dias Timm (CC BY-NC 2.0)

A reserva protege 23 mil hectares de Mata Atlântica e, em 1999, recebeu o título de Patrimônio Natural da Humanidade pela Unesco.

Mas o maior segredo de Linhares está na foz do Rio Doce. É no litoral da cidade que o rio encontra o Atlântico. Mais precisamente, em Regência Augusta, uma pequena vila de pescadores quase intocada e praticamente desconhecida do turismo nacional.

Foto: Luma Poletti Dutra (CC BY-NC-SA 2.0)

Foto: Luma Poletti Dutra (CC BY-NC-SA 2.0)

Apesar de desconhecida da grande maioria das pessoas (inclusive dos capixabas), Regência – ou Régis para os mais íntimos – ganhou fama internacional como um dos melhores pontos do litoral brasileiro para a prática de surf. Tudo por causa das ondas grandes do mar agitado dessa parte do litoral capixaba.

Foto: Luma Poletti Dutra (CC BY-NC-SA 2.0)

Foto: Luma Poletti Dutra (CC BY-NC-SA 2.0)

No rastro desse movimento sempre crescente de surfistas, pequenos empreendimentos turísticos se organizaram, preparando o turismo de Regência para outro tipo de público. Atualmente Regência vai além do surf. Por meio de uma pequena agência instalada na vila, você pode(ia) alugar bicicletas, andar de caiaque ou lancha pelo Rio Doce, agendar uma pescaria no rio com um pescador da vila ou fazer a famosa “carebada”, um passeio noturno para observação da desova de tartarugas marinhas.

Pouca gente sabe, mas Regência é o único ponto do litoral brasileiro de desova da tartaruga de couro, também conhecida como tartaruga gigante. Por causa disso, aí se encontra uma das mais antigas bases do Projeto Tamar. São os monitores do Tamar que acompanham os turistas nas carebadas, que costumam ocorrer entre outubro e dezembro.

Projeto Tamar (Foto: Prefeitura de Linhares)

Projeto Tamar (Foto: Prefeitura de Linhares)

Entre as pousadinhas de Regência, eu destaco a Vila Sérgio, que eu “namoro” há tempos pelo instagram:

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Para 2016, o dono da pousada anunciou um belo investimento em dinheiro na renovação de alguns ambientes e na inauguração de um espaço de descanso, apostando nas previsões do melhor e mais movimentado verão de Regência. Daí você pode imaginar – ou não – o tamanho da frustração e do prejuízo que ele e todo o povo de Regência estão amargando com a debandada de turistas que a vila vem sofrendo desde o início da tragédia.

A nova área de descanso da Vila Sérgio

A nova área de descanso da Vila Sérgio (Foto: Divulgação)

Foi pensando no Sérgio e em todos os outros empreendedores de Regência e das cidades às margens do Rio Doce que eu resolvi publicar esse post. Que a nossa solidariedade com essa parte da população brasileira vá além da doação de água. Que a gente possa ajudar a reparar os prejuízos e, principalmente, a resgatar a auto-estima de um povo que perdeu subitamente um de seus maiores símbolos. E que a gente faça isso do jeito que a gente mais gosta: viajando.

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14 respostas para “O turismo às margens do Rio Doce”

  1. Eu sou uma eterna incentivadora do turismo como opção econômica sustentável e acho que esse pode ser sim um caminho para ajudar MG e ES a saírem dessa lama, literalmente. Como sempre você fez um um belo trabalho, Tiago! Vamos torcer para que a corrente de solidariedade vá além da doação de água a roupas!

    • Isso, Camila! A gente pode e deve contribuir para reverter esse quadro. E o turismo pode ser um instrumento dessa ação transformadora.
      Tô com esse post na cabeça há algumas semanas, mas só agora consegui a coragem necessária para escrevê-lo.
      Obrigado pela visita!

  2. MelissA disse:

    Que post legal Tiago, muito interessante fazer essa rota, eu vou ate tentar. Já fui ao Instituto Terra e a Baixo Guandu, ja ate escrevi no meu blog…

    Parabens.

    abcs

    Melissa

  3. Gê Azevedo disse:

    Que post lindo, Tiago!!
    Eu também sempre tive uma relação de muito carinho com o Rio Doce. Minha família materna é de Resplendor e sempre ia para lá em minha infância e adolescência. Adorava quando dava para ver o rio pela janelinha do trem. E, a cada viagem, perdia a conta de quantas vezes tinha que atravessar o rio, já que havia familiares em cada margem. Meus familiares que moram lá sofreram diretamente com a tragédia. Agora é torcer para que todos os atingidos se recuperem tanto quanto possível.
    Mas, enfim, adorei ver minha pequena Resplendor no blog! Parabéns pelo trabalho!

  4. Eline disse:

    Bom dia, despretensiosamente ao procurar informações sobre Vitória-ES por motivo de viagem, me deparo com este e todos os maravilhosos posts que publica, parabéns por esta dedicação. Que Deus o ilumine sempre. Gratidão!

  5. Miriam Morgado disse:

    Tiago, linda sua postagem! Parabéns! Gostaria de poder conhecer as cidades e todas as coisas que citou….quem sabe um dia. Espero que essa lama acabe o mais rápido possível e que todas as pessoas que foram prejudicadas se recuperem do abalo econômico e emocional! Que Deus possa ajudar a todos com a sua infinita grandeza! Abraços.

  6. Muito triste o que aconteceu com o Rio Doce. Faz uns 4 anos fizemos uma viagem linda por Minas e passamos por ele várias vezes. É um belo lugar. Vamos torcer para tudo voltar a ser como era.

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