Feed on
Posts
Comments

Category Archive for 'Rota do Caparaó'

[caption id="attachment_2770" align="aligncenter" width="576" caption="Crédito: Fred Ayres"][/caption]

O Pico da Bandeira é, de longe, o principal atrativo da Rota do Caparaó Capixaba. Subir até o seu cume, a 2.890 metros de altitude, é o objetivo de 10 entre 10 turistas que visitam a região. E não é pra menos. Todo mundo quer ver com os próprios olhos o que se vê de cima do ponto mais alto do país.

Tudo bem. Eu sei que, geologicamente falando, o Pico da Bandeira não é o ponto mais alto do país. O Pico da Neblina, do alto de seus 2.993 metros, e o seu vizinho 31 de Março, com seus 2.992 metros, estão aí para estragar a nossa festa classificatória. Mas, a não ser que você encare ir até Manaus, viajar 800 km até a aldeia ianomâmi de Maturacá, subir o rio Cauaburi em canoa motorizada até o Igarapé Tucano e, depois, caminhar por mais 4 dias até o topo dos dois picos, vai ter que concordar comigo que o Pico da Bandeira é, sim, o ponto mais acessivelmente alto do país. E ponto.

Pra que sofrer tanto por causa de míseros 100 metros a mais, não é mesmo? :-D

[caption id="attachment_2769" align="aligncenter" width="599" caption="Crédito: Fred Ayres"][/caption]

E o melhor de tudo é que nós, capixabas, nem precisamos mais sair do Estado e ir para Minas Gerais para se sentir por cima da cocada preta lá no topo do Pico da Bandeira. É que, desde 1998, o monopólio da trilha mineira foi definitivamente quebrado com a abertura de uma trilha também pelo lado capixaba. Com isso, ficou bem mais fácil “capixabizar” o pico!!!

Fácil é maneira de dizer. Subir o Pico da Bandeira está longe de ser fácil. Para mim, essa foi a trilha mais difícil que fiz até hoje. Acumulei uma relativa experiência em trilhas nas minhas últimas viagens pelo Brasil, incluindo a Chapada Diamantina (que você acompanhou aqui) e os Canyons do Parque Nacional dos Aparados da Serra e Serra Geral, na divisa do Rio Grande do Sul com Santa Catarina. Mas, no quesito “língua pra fora”, nenhuma delas foi páreo para a trilha do Pico da Bandeira.

O percurso da trilha capixaba é bastante acidentado e íngreme. Na subida, a gente sofre com a falta de ar por causa da altitude, já que a caminhada começa a mais de 2.100 metros de altura. Na descida, o obstáculo é outro: o impacto no joelho e a tensão nas costas e no pescoço por ter que ficar olhando o tempo todo para baixo (no nosso caso, a tensão era ainda maior por estar chovendo). Não vou negar: após 7 horas de subida e descida, eu cheguei um caco ao final do passeio.

Quem já subiu o pico pelos dois lados diz que a trilha mineira é mais fácil. Por lá, você caminha mais (no total são 9 km de caminhada), mas a subida mais pesada se concentra nos 2 km finais. No Espírito Santo, os 4,2 km de caminhada são de subida forte, como eu falei. Mas, por isso mesmo, diz-se que, por aqui, o visual da trilha é mais belo e dramático. Você já começa andando bem no topo das montanhas e, em quase todo o percurso, tem uma visão bem mais ampla da paisagem.

[caption id="attachment_2773" align="aligncenter" width="576" caption="Crédito: Fred Ayres"][/caption]

Você só precisa entrar em um acordo prévio com São Pedro para ele não estragar a sua festa! A minha foi pro brejo nas duas vezes que eu subi o pico. Na primeira, por Minas Gerais, eu sequer consegui chegar ao topo por causa de um chuva torrencial que caiu quando eu estava no finalzinho do percurso. Nessa última, a chuva fina não chegou a me impedir de alcançar o topo, mas o tempo nublado tapou completamente a paisagem.

O resultado foi esse:

Não foi a subida que eu imaginava, claro! Mas presenciar, de pertinho, aquele vai-e-vem de nuvens até que foi legal. Foi como se eu fizesse parte de um fenômeno meteorológico. Bastavam 15 minutos para um vale ser totalmente encoberto por uma neblina intensa. E depois mais 15 minutos para essa neblina se dissipar. E na maior parte do tempo, nós estávamos acima das nuvens!!

Mas eu sei que a grande maioria dos visitantes não quer subir o pico apenas para vivenciar uma aula prática de meteorologia (eu também não queria!). Por isso, se você não tem acesso direto com São Pedro, o melhor mesmo é apostar nos períodos de menor incidência de chuvas. O inverno, especialmente o mês de julho, é a melhor época. Mas se prepare para enfrentar um frio congelante. Lá em cima, as temperaturas chegam a ficar negativas.

De qualquer forma, com chuva ou sem chuva, a trilha pode ser apreciada também sob outra ótica: a da flora. Não precisa nem ser botânico para se encantar com as mil e uma flores que a gente encontra pelo caminho:

Vale lembrar que o Parque Nacional do Caparaó abriga uma das maiores e mais importantes reservas de mata atlântica do país! E no lado capixaba, a vegetação é ainda mais exuberante por causa do clima mais úmido.

Além disso, nada substitui a incrível sensação de liberdade e poder que se tem ao chegar em cima do pico. É como se você estivesse no lugar mais privilegiado do país, assistindo a tudo e a todos de camarote. Ninguém há de te reprovar se você pensar que, por alguns instantes, tem o Brasil aos seus pés. Mas deixa eu mudar logo de assunto antes que isso aqui descambe para um arremedo de auto-ajuda!

Voltando ao que interessa… a portaria capixaba do Parque está localizada a aproximadamente 9 km do Distrito de Pedra Menina, em Dores do Rio Preto. Digamos que Pedra Menina é a principal base do Caparaó Capixaba. No seu entorno estão os principais empreendimentos do trade turístico da região, incluindo a Pousada Villa Januária, onde nos hospedamos e sobre a qual falarei no próximo post.

A portaria funciona das 07h às 22h. Para entrar no Parque paga-se uma taxa de visitação de 11 reais por pessoa. A partir daí, pode-se seguir de carro por mais 9 km em estrada parcialmente pavimentada até o lugar conhecido como Casa Queimada.

O trajeto até a Casa Queimada possui alguns pontos reservados para… churrasco!!! Eu realmente não entendo como pode ser permitida a realização de churrasco (leia-se: fogo) no meio de um parque nacional. Mas eu não vou entrar nessa discussão para não parecer ranzinza demais.

Além disso, ao longo do caminho, há trilhas que levam a três cachoeiras que nascem dentro do Parque: a Cachoeira da Farofa, a do Sete Pilões e a do Aurélio. Tá aí mais uma “regalia” que só se tem na trilha capixaba.

A Casa Queimada é a versão capixaba do Terreirão, de Minas. Nela há banheiros e uma área para acampamento, onde os visitantes podem passar a noite. Acampar no parque é obrigatório para aqueles que desejam assistir o nascer-do-sol de cima do pico. É que, para isso, a trilha deve ser percorrida durante a madrugada. E, como a portaria do parque fecha às 22h, você precisa entrar lá antes desse horário.

Quem já foi garante. Não há nascer-do-sol mais bonito que esse no Brasil:

[caption id="attachment_2771" align="aligncenter" width="576" caption="Crédito: Fred Ayres"][/caption]

E é bom lembrar que o sol nasce sob o mar do Espírito Santo, ok? ;-)

A partir da Casa Queimada começa a escalaminhada. Como eu já disse, são 4,2 km até o topo do pico. Ao longo do trajeto, algumas placas sinalizam a distância e o caminho. Mas eu não seria irresponsável de dizer que o percurso é auto-guiado. Embora muita gente o faça sozinho, por razões de segurança eu aconselho a contratação de um condutor, cuja diária, na época em que fui, saía a 80 reais para até 6 pessoas. Procure a Agência Serra do Caparaó Eco Tur, em Pedra Menina, para maiores informações (28 3559 3082).

Considere gastar de 2 a 3 horas para chegar ao topo. Em alguns trechos do percurso há sinal de celular. Leve o seu consigo e aproveite esses momentos para aquela clássica “zoada” com amigos e familiares. Sabe aquela coisa de “I’m the king of the worlllllld!!!!“? Pois é. Não tem hora mais apropriada para usá-la. ;-)

A 50 metros da chegada ao topo do Pico da Bandeira as duas trilhas (mineira e capixaba) se encontram. Mas só quem veio pelo Espírito Santo já terá passado por cima do Pico do Calçado, a quinta montanha mais alta do país, com 2.849 metros de altitude. Que privilégio, não?

Ao chegar em cima do Pico da Bandeira, não se assuste com a farra dos outros. Faça a sua. Mais que uma prova de resistência, chegar ali é um privilégio. Celebre a emoção de chegar ao ponto mais (acessivelmente) alto do país. E não se esqueça que você está no Espírito Santo!!!

[caption id="attachment_2772" align="aligncenter" width="576" caption="Crédito: Fred Ayres"][/caption]

P.S.: agradeço ao Fred Ayres que, gentilmente, cedeu as fotos que “salvaram” esse post!

Read Full Post »

Tudo aconteceu meio que sem querer e sem muitas pretensões. Quando o fim do ano se anunciou, eu e a Renata nos demos conta que o feriado da proclamação da República, em 15 de novembro, seria a última oportunidade de improvisar uma viagem curta pelo Espírito Santo para criar novas pautas para o blog. Você sabe bem que, ultimamente, o “Rotas” tem andado bastante por “Outras Rotas” e deixado de lado a sua origem, o “Capixabas”. Por isso, eu precisava sair a campo para resgatar a sua verdadeira identidade antes que alguém começasse a pensar que eu sou daqueles que nega as próprias raízes! :-D

Não foi difícil escolher a rota do Caparaó Capixaba como destino da nossa viagem. Em primeiro lugar, eu queria falar sobre algo inédito aqui no blog para sair um pouco da mesmice. Até ontem não havia um único post sobre as cidades que integram essa rota. Em segundo lugar, a rota do Caparaó engloba os municípios capixabas sobre os quais se espalha o Parque Nacional do Caparaó, o único parque nacional com extensão sobre o Espírito Santo. Só isso já seria mais que suficiente para despertar a minha curiosidade bloguística. E, em terceiro lugar, o Pico da Bandeira, atração máxima da rota, era uma ausência imperdoável no currículo da Renata, que é nascida e criada em Cachoeiro de Itapemirim, cidade vizinha à rota. Eu já havia subido o pico pelo lado mineiro.

Só depois que a gente decidiu o nosso rumo é que eu me dei conta que não conhecer o lado capixaba do Parque Nacional do Caparaó ou, ainda, não ter subido o Pico da Bandeira, não é (ou era) uma falha única e exclusiva da Renata. Essa é uma falha de muitos capixabas. Da maioria, eu diria. Tem capixaba que nem sabe que tem um parque nacional no Espírito Santo. E o que é mais grave: tem capixaba que nem imagina que o Pico da Bandeira, o terceiro pico mais alto do país, explorado turisticamente por Minas Gerais há 50 anos, fica em solo capixaba!!!

Alô, capixaba! Onde é que você estava nas suas aulas de geografia, hein?

Foi, então, que eu percebi que tamanha desinformação ou desinteresse do capixaba a respeito do Caparaó leva-o a viver um triste ocaso dentro do nosso Estado. Um ocaso que, para mim, é emblemático do nosso amadorismo turístico. Eu realmente não conheço nenhum outro exemplo de parque nacional brasileiro que tenha sido tão subutilizado turisticamente pelo Estado que o abriga. E isso porque mais de 70% de toda a extensão do Parque, incluindo o próprio Pico da Bandeira, estão no Espírito Santo!

A verdade é que o Caparaó nunca foi um produto turístico de primeira linha do nosso Estado. Ele sempre esteve em segundo plano nesse quesito. Por algum motivo, que eu não sei explicar, nós nunca nos empenhamos em fazer do Pico da Bandeira uma referência turística tipicamente capixaba.

Não é por outro motivo que, até bem pouco tempo atrás, a única forma de acesso para as trilhas do parque se dava por Minas Gerais, na cidade de Alto Caparaó. A portaria capixaba só foi inaugurada em 1998 e o caminho que leva até ela está em obras até hoje! Por outro lado, as informações oficiais na internet sobre os atrativos da rota são esparsas e praticamente inúteis. A exceção fica por conta do recentíssimo site criado pelo chamado Circuito Caparaó Capixaba, uma iniciativa levada a frente por 25 empreendimentos turísticos privados da região com o apoio do Sebrae e da Setur.

É por isso que eu não me espanto em constatar que os mais rentáveis frutos da exploração turística do Parque Nacional do Caparaó sejam colhidos por Minas, e não pelo Espírito Santo. É de Minas que as pessoas geralmente se lembram quando se fala no Parque e no Pico da Bandeira. É para Minas que as pessoas vão quando desejam conhecer as atrações do Parque ou subir o Pico. E é a Minas que as pessoas rendem escancarados elogios quando assistem a beleza do nascer do sol lá no topo do Pico. E sabe o que é pior? Elas fazem tudo isso olhando para o horizonte capixaba e plantadas sob o solo do município de Ibitirama, no Espírito Santo.

Daí que essa viagem improvisada aos 45 minutos do segundo tempo se mostrou grandiosa em seus propósitos estratégicos. Muito mais que apresentar um roteiro turístico cheio de atrações e belezas, ela vai me permitir convocar os capixabas para um dever cívico: o de reivindicar, de vez, a naturalidade do Pico da Bandeira!

Sim, porque os mineiros (eu, inclusive) que me desculpem, mas o Pico da Bandeira é nosso!

Nos próximos posts, eu convido você, capixaba, a conhecer um pouco mais sobre a Rota do Caparaó e seus segredos escondidos.

_______________________________

Siga o “Rotas” no Twitter

Curta o “Rotas” no Facebook

Read Full Post »