Isso eu jamais vou me perdoar. Moro em Vitória há 14 anos e, há pelo menos 6, passo pela Av. Marechal Mascarenhas de Morais, em Bento Ferreira, quase todo santo dia. Mesmo assim, eu nunca tinha me dado conta de que ali, bem pertinho da avenida, com acesso à direita do Instituto Braille, se escondia um dos restaurantes mais tradicionais da ilha de Vitória: o Bar do Bigode.
O Bar do Bigode fica embrenhado no meio das ruelas do bairro de Jesus de Nazaré. Pra quem não sabe, Jesus de Nazaré fica praticamente todo em cima de um morro que está à beira da baía de Vitória. Por aí já dá para imaginar a visão que você tem de lá, né?
Pois então. Essa visão é o principal atrativo do Bar do Bigode. É ela quem fez – e continua fazendo – a fama do bar. O Bigode é daqueles estabelecimentos que a gente incluiria entre os concorrentes da categoria “pra comer com os olhos” se fôssemos incumbidos da tarefa de organizar um concurso de gastronomia. E ele seria um candidato fortíssimo ao título!
É impossível não se deslumbrar com o conjunto da paisagem que se avista das janelas do restaurante: o deck, o mar, a vegetação costeira, os barquinhos, os navios, as casas humildes da comunidade de Jesus de Nazaré, os prédios modernos da Enseada do Suá, a Terceira Ponte e, claro, o Convento da Penha. Temos ali uma expressão quase perfeita do cenário que marca a beleza da nossa ilha.
Esse cenário de Jesus de Nazaré tem um quê de Ilha das Caieiras. Os dois bairros se formaram por uma comunidade que viveu – ou vive – praticamente em função do mar, tem casinhas enfileiradas e de aparência simples e ruas pra lá de estreitas. Até por isso, o acesso de carro aos dois é igualmente difícil. São poucas vagas para estacionamento e, em alguns trechos, é preciso se esmerar para não esbarrar em algum obstáculo. Mas Jesus de Nazaré tem uma incrível vantagem sobre as Caieiras: você não precisa se deslocar tanto para chegar até lá e nem corre o risco de se perder no meio de um caminho mal sinalizado.
Aliás, o próprio Bar do Bigode segue o mesmo padrão estético dos restaurantes da Ilha das Caieiras. Tudo é muuuuuito simples e sem frescura. Dá só uma olhada no ambiente interno do bar:

E no externo:
Essa simplicidade que se vê no Bigode está por toda a parte no bairro Jesus de Nazaré. Não poderia ser diferente. Jesus de Nazaré é uma comunidade simples. E isso faz do almoço no Bigode uma experiência pra lá de singular e inspiradora. Ao passar pelas casinhas do bairro e descer a escadaria que dá acesso ao Bigode e à praia, eu só pensava numa coisa: ahhhh se Dorival Caymmi fosse capixaba!
Se Dorival Caymmi fosse capixaba, uma cena como essa já teria estampado o refrão de alguma música:
(Depois que eu subi o post, uma leitora do blog, a Janaina Lima me informou, pelo Facebook, que Jesus de Nazaré já tem o seu Dorival Caymmi. Trata-se do compositor capixaba Chico Lessa, que mora no morro e fez uma música em sua homenagem: Morro de Nazaré. Pena que não achei nenhum video com a música para eu colocá-lo aqui no Rotas.)
Voltando ao que interessa… consciente do tesouro que tem ao seu redor, o Bigode exagerou no tamanho e na quantidade de janelas em seu restaurante. Elas atravessam as paredes de ponta a ponta. Assim, a gente não tem nenhuma dificuldade de apreciar o visual de onde quer que a gente esteja.
Tá, mas o Bigode não é SÓ paisagem. O Bigode é COMIDA BOA COM PAISAGEM! Ele é especializado em culinária capixaba. Você encontra frutos do mar em tudo quanto é tipo de prato, de moqueca a risoto.
Mas o carro-chefe do Bigode é esse aí ó:
Quer dizer… esse aí de cima é uma pequena adaptação do carro-chefe do Bigode, o arroz de mariscos. Esse é um arroz com polvo, camarão e lagosta (R$96,20 para 4 pessoas). Porque nem todo mundo é fã de sururu, sabe?
Mas antes do arroz nós comemos essa casquinha de siri aqui ó:
Eu não poderia deixar de mencionar essa casquinha de siri (R$10,20). Por mais paradoxal que seja, eu preciso valorizar uma casquinha de siri feita com a mais pura carne de siri desfiada!
Agora fala sério? Com um visual desses e uma comida dessas, é ou não é para eu sentir remorso por não ter conhecido o Bar do Bigode antes?
P.S.: em tempo, agradeço ao casal de amigos Fernando e Gisele por terem nos apresentado ao Bar do Bigode.
Informações úteis:
Bar do Bigode
Endereço: Rua Helena Muller, 30 – Escadaria Clemente Veiga da Costa, Jesus de Nazaré, Vitória-ES
Tel: 3345-6334
Horário de funcionamento: 11h/17h (fecha seg.)
Como chegar: para quem vem na direção centro-praia pela Av. Marechal Mascarenhas de Morais, basta virar à direita no primeiro sinal após o Instituto Braille. Siga reto toda vida. Pergunte ao primeiro transeunte sobre o Bar do Bigode. Ele vai saber te explicar melhor do que eu!
Nível de contaminação pelo PAC: Vacinado.
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Taí uma boa oportunidade para juntar a fome com a vontade de comer!
Nesse final de semana a Ilha das Caieiras será palco do I Festival de Torta Capixaba Fora de Época. É a chance que você tem de provar um dos pratos mais tradicionais da culinária capixaba (a Torta Capixaba) fora da época em que ele é tradicionalmente servido (na Páscoa).
A comilança começa na sexta (03/09) e vai até domingo (05/09), a partir das 11 horas, em frente à peixaria comunitária do bairro. Além da torta, também serão servidos outros pratos típicos, como mariscada, bobó de camarão e feijoada de marisco – especialidade das marisqueiras locais.
Para entreter os visitantes, música ao vivo, samba, congo e apresentação de teatro de rua. Sem falar, é claro, da paisagem fascinante, que você já conhece aqui pelo “Rotas” (clique aqui).
Junto com as paneleiras do bairro de Goiabeiras, as desfiadeiras de siri da Ilha das Caieiras (juro que eu tentei não rimar!) são o grupo de mulheres mais famosas de Vitória. Elas são responsáveis por desfiar a carne desse pequeno crustáceo que é o principal ingrediente da culinária da região.
Mas se engana quem espera conhecer o ofício das desfiadeiras nos finais de semana. Aos sábados e domingos a força de trabalho no galpão da Cooperativa é direcionada para a cozinha dos restaurantes instalados no entorno, que irão servir boa parte da carne desfiada durante a semana. Não há nem uma senhorinha fingindo desfiar um siri para fazer a alegria do turista. É como se, de repente, as baianas de saia rodada resolvessem sumir das ruelas do Pelourinho em pleno final de semana ou se as nossas paneleiras decidissem parar de fazer as panelas nos dias em que a maioria de nós mortais pode se dar ao luxo de sair sem rumo, sem lenço e sem documento.
Esse desabafo, caro turista, é apenas para te alertar que, aos sábados e domingos, a Ilha das Caieiras perde o seu principal referencial turístico – as desfiadeiras de siri. Mas, como você verá no meu próximo post, há outras razões para você visitá-la.